O dia de 2012 : Coritiba x Palmeiras


Era mais ou menos 17h do dia 11 de julho de 2012, quando Curitiba – nublada e chuvosa – nos recebeu para a decisão da Copa do Brasil, um plano que nasceu muito antes da partida disputada entre o meu Coritiba e o Palmeiras de tantos conhecidos. Semanas antes da final, passei pelo sofrimento de um torcedor do interior na busca pelos ingressos (para se ter uma ideia a Gazeta do Povo chegou a publicar uma matéria alertando que a partida corria riscos de ser assistida apenas por sócios do clube).

Depois disso, a luta foi pelas passagens “mais em conta” e pelas folgas no trabalho. Valia a pena tudo isso? Sim! Era o “jogo do ano”! Um ano antes já havia passado o sofrimento de assistir pela TV a trágica decisão contra o Vasco da Gama. Tudo parecia se encaixar. A alta taxa de sócios inadimplentes permitiu que alguns ingressos fossem vendidos a não sócios, mas, melhor que isso, consegui a fundamental ajuda de meu camarada jornalista Flávio Miranda e de teu pai, sócios do verdão (os sócios tinham direito a adquirir um ingresso extra para o jogo).  O cartão de crédito consegui emprestado com outro Flávio, esse meu irmão.

Após perder um caminhão de gols no jogo de ida (0x2 em São Paulo) e sofrido com a arbitragem contestável de Wilton Pereira Sampaio, o Coxa precisava reverter a vantagem e fazer pelo menos dois gols de diferença para sonhar com o título e, consequentemente, uma vaga na Taça Libertadores da América de 2013.

Em noite chuvosa, a capital paranaense parecia não saber que seria palco de uma grande decisão. No caminho para o estádio, um cenário impossível de esquecer (apesar da minha fraquíssima memória) a chuva gelada escorria pela capa de chuva (que compramos ainda em Foz); policiais circulavam montados em cavalos. O barulho do galopar dos cavalos se misturava com outros sons. Eram fogos de artifício explodindo a todo momento, gente cantando e, no fundo, um burburinho dos visitantes palmeirenses, que começavam a chegar no estádio.

Ao passar pela catraca, o sentimento era de um alívio pelo medo de alguma coisa dar errado. Mesmo com duas horas de antecedência, boa parte das arquibancadas já estavam lotadas. O jeito foi se acomodar no anel inferior, atrás do gol de entrada, do túnel do vestiário e praticamente no mesmo nível do campo. O ponto não permitia uma visualização muito tática do jogo, que também era atrapalhada pela “grua” da Rede Globo que “passeava” pela torcida mais bonita do Brasil.

Muitas bexigas e barulho para apoiar o Coxa na decisão. Foto: UOL Esportes

Não era um jogo normal. Não era um dia normal. Não era uma sensação normal. Ao entrar no estádio, senti uma atmosfera diferente no ar. A cada batida da bateria da organizada – que estava num anel acima – a sensação era que o som traduzia a pulsação do coração de cada torcedor ali presente. No rosto de cada um estava a confiança e esperança no título, mas também um notável ar de preocupação. A tarefa era muito difícil. Todos ali queriam que o jogo começasse logo e, de preferência, trazendo dois gols relâmpagos para o Coxa igualar a partida de São Paulo.

Antes do jogo, uma mistura de energias no ar. Depois de um vídeo motivacional (veja na sequência), exibido no telão do estádio, arranca lágrimas de um jovem casal ao nosso lado. Já passava das 22h e nada do Palmeiras aparecer no campo. Era clichê saber que só entraria assim que os donos da casa entrassem. E assim foi. Sorrisos e olhos marejados durante o show de luzes “Green Hell Tecnológico”.

“Hoje eu vejo meu Coxa campeão nacional”. Esse era o pensamento de todos, principalmente daqueles que em 2011 presenciaram o vice para o Vasco, naquele mesmo Couto Pereira. Antes de começar a partida, pelo rádio um angustiado torcedor é informado que o técnico Marcelo Oliveira havia escalado o irregular lateral Jonas no lugar do crescente Ayrton. Era um sinal? O jogo e o Coritiba começam nervosos.

A bola parece estar pesada demais no pé dos jogadores e erros infantis são cometidos. Mas mesmo assim a torcida joga junto. A cada posse de bola palmeirense ela vaia forte. A cada arrancada, uma nova esperança. É jogo de assistir de pé do início ao fim. Impossível sentar, impossível pensar em qualquer outra coisa que possa estar acontecendo no mundo. Todos os caminhos e olhares pareciam estar ligados ao Couto Pereira.

O Palmeiras joga inteligentemente – e cruelmente – com o regulamento debaixo do braço, comandados pelo “copeiro” Luiz Felipe Scolari e pela experiência de Marcos Assunção. Lá se vão 15, 30, 45 minutos e nada de um golzinho para embalar os mais de 30 mil coxas-brancas. Junto com o início do segundo tempo entra em campo Ayrton e, em sua primeira oportunidade, cobra uma falta perfeita no ângulo de Bruno. O Couto Pereira simplesmente explode de alegria. É gente abraçando gente que nunca viu na vida. É um sinal de esperança. É quando percebi que todo sacrifício já havia valido a pena, independente do resultado final.

É momento de festejar. O relógio ainda marcava por volta de 15 minutos, restando ainda outros 30 para fazer ao menos um gol e levar a decisão para os pênaltis. “Coxa, coxa doido!” A torcida se enche de confiança, canta e pula nas arquibancadas que tremem no mesmo ritmo.

Foto: Uol Esportes

Foto: Uol Esportes

Poucos minutos depois, o juiz marca uma falta duvidosa próxima da área coxa-branca. O torcedor se revolta com o lance. Sabe que do outro lado está Marcos Assunção, uma arma mortal. Não dá outra. A torcida joga todas as energias negativas no lance, como se estivesse tentando tirar a bola da área coxa-branca. Pelo alto a bola encontra a cabeça de Betinho e vai parar dentro das redes de Vanderlei. Todos parecem não acreditar. Um silêncio mortal toma conta do Couto Pereira, quebrado apenas alguns segundos depois pelos gritos de “vergonha” direcionados para o árbitro da partida.

Era consenso entre todos que, caso o Coxa sofresse um gol, a situação ficaria dificílima. “O Coxa não pode sofrer um gol”. Dali para frente a missão seria fazer mais três gols. O coração até acreditava na possibilidade, mas a razão já não permitia mais acreditar. Só restava a paixão. Sem tática, nem estratégia, o time até tentou. Aos poucos o estádio foi esvaziando. Nas ruas ao redor do estádio, silêncio e um clima de velório.

O título não veio, mas a paixão continua mais viva do que nunca! Orgulho de acompanhar de perto, no estádio, no meu estado, o meu time de coração.

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